domingo, 6 de fevereiro de 2011

Avaliação da Atividades desenvolvidas como voluntário da ROER em Petrópolis entre 17 e 23 de janeiro de 2011 Vila Velha, 05 de fevereiro de 2011.

Vila Velha, 05 de fevereiro de 2011.

Prezados Radioamadores e demais autoridades,

Como é de conhecimento dos senhores e senhoras, o Rio de Janeiro padeceu de uma catástofe incomensurável neste início de ano. O caos pós-evento teria efeitos ainda mais perversos caso os radioamadores daquelas localidades atingidas não tivessem ajudado na organização dos sistemas de comunicação e no estabelecimento de uma rede de solidariedade.

Tive a oportunidade de trabalhar como voluntário entre os dias 17 e 23 de janeiro no município de Petrópolis. Fato que preciso externar. Não para ser testemunha ocular da destruição que ví, tampouco receber considerações e elogios por ter participado daquela operação. Não! O fato que preciso apresentar é a solidez e a grandiosidade das atitudes tomadas pelos radioamadores da região Serrana do Rio de Janeiro, mais particularmente no município de Petrópolis pelos integrantes da ROER - Rede de Operações de Emergência de Radioamadores - uma rede de radioamadores voluntários daquele município.

Antes de mais nada gostaria de agradecer imensamente pela oportunidade de ter vivido uma experiência ímpar na ação de comunicação em emergência. Tenho aquelas pessoas com quem convivi como pessoas singulares diante do radioamadorismo nacional: únicas, imprescindíveis e que desempenharam um papel vital na região de Petrópolis nas comunicações de interesse público diante de dantesco cenário.

Pude perceber que mesmo sendo vítimas da catástrofe ocorrida, ausentaram-se de suas famílias, seus trabalhos, suas questões particulares e organizaram-se numa rede de emergência em prol de sua comunidade.

Era clara a imagem de destruição e caos nos olhos das pessoas daquele lugar. Contudo, os olhos daqueles radioamadores brilhavam diferente. Brilhavam de força, de coragem e de solidariedade. Mesmo quando aquilo de mais básico começou a faltar, diante do caos instaurado, quando nosso instinto animal luta por sobrevivência eles tomaram uma atitude muito digna de pensar coletivamente para a coletividade. Uma tarefa que por sí só já é muito, muito difícil. Eles conseguiram fazer isso diante de toda adversidade. Por isso já os considero fantásticos.

Os considero mais, porque além de terem se organizado em prol das vítimas de Petrópolis eles conseguiram levar à cabo os objetivos de uma Rede de Comunicação de Emergência:estabeleceram a comunicação entre os mais diversos agentes públicos, contando com companheiros instalados em postos diferentes, com revezamento de pessoal, equipamentos próprios e numa condição geográfica complicada.

Como se não bastasse ainda estabeleceram uma Rede de Solidariedade: seja organizando as ações junto à Secretaria de Meio Ambiente, seja no repasse de QTC´s e informações referentes a famílias em perigo iminente, incomunicáveis, ou mesmo sobre a situação de localidades ilhadas e andamento dos trabalhos.

Isto é, eles foram além daquilo que se espera de uma rede de emergência. Não somente auxiliando, mas executando um sistema de comunicação. Agindo junto com as autoridades responsáveis, informando, conectando e decidindo os encaminhamentos de uma operação desta envergadura.

Numa análise mais superior, sobrepassaram a ação trivial de “locutores da desgraça” para uma ação ativa e organizada em sua área de atuação. Sem eles o município estaria desorganizado, problemas de ordem, de comando, de conhecimento da situação das localidades. Sem eles teria-se gasto muito mais tempo e combustível de aeronaves. Por eles a municipalidade atuou com mais rapidez, detalhamento, objetividade. E porque não dizer: pouparam mais desespero, paciência, dignidade aos atingidos... vidas.

Quando convidado pelo Fábio Hoelz - PY1ZV (Coordenador da ROER) para atuar diante do panorama de que a mesma fosse abrangir o Município de São José do Vale do Rio Preto, que estava com o voluntariado já acima dos 100% de capacidade de operação e a necessidade de instalar um posto avançado de comunicação num ponto remoto que se encontrava isolado onde, até então, a comunicação somente se processava no momento de pouso das aeronaves, nos prontificamos de imediato. Uma porque eu já sabia do trabalho sério que eles vinham desenvolvendo ao longo dos meses na área de Defesa Civil e Operações de Emergência e durante a operação, outra porque eu entendo que uma rede de emergência deve e precisa atuar no local do desastre.

Apesar de ser Coordenador Estadual da RENER do Estado do Espírito Santo, não vejo problemas em dizer que, neste caso a ROER é um exemplo a ser divulgado aos quatro cantos. Um exemplo a ser seguido. Ela conseguiu trazer à tona e de forma clara o papel do radioamador numa situação como a ocorrida. Espero que os mesmos não se acanhem de criar blogs, postar fotos, vídeos, documentação. Não será um serviço de auto-promoção, como pensarão alguns. Mas um serviço em prol do radioamadorismo brasileiro e da Defesa Civil Nacional.

Voltando-me às atividades desenvolvidas podemos destacar as seguintes: o reconhecimento de uma localidade no Brejal que atendesse uma perspectiva de instalar um repetidor que conectasse os municípios de São José do Vale do Rio Preto e Petrópolis (Itaipava e Brejal) e o estabelecimento de uma base avançada de comunicações próximo às localidades ilhadas de Santa Rita e Brejal.

No primeiro caso entendo que esta foi uma tarefa bem sucedida, e que pode ser feita em momentos de paz, ou por intermédio da utilização de softwares como Radio Mobile que conta com a utilização de dados georreferenciados possibilitando a avaliação de locais a serem conectados sem precisar ir ao local. Numa análise primária, dias depois de voltar, identifiquei que a Pedra Maria Antônia é um ponto estratégico para a ROER e, em minha análise, seria o local ideal para a construção de um repetidor de baixa potência com a utilização de painéis solares para o atendimento básico de toda a região.

No segundo caso eu defendo que a atuação de radioamadores em localidades incomunicáveis é primordial. Com as devidas precauções de segurança, a atuação de radioamadores nestas localidades somente vêm a contribuir para que a municipalidade tome conhecimento das necessidades da localidade em tempo real. Um exemplo foi o resgate aéreo solicitado para uma família que tinha evacuado seu sítio em Socorro com o receio do temporal que ameaçava acontecer. Esta família estava decidida ir a pé por entre a destruição do rio até alcançar a Rio-Bahia. Imaginamos de 5 a 6 horas de caminhada, e já era 16:00h. A atuação da ROER evitou esta descabida situação.

Foi apenas um exemplo, imaginemos o que estava acontecendo em outras localidades ilhadas e incomunicáveis. A atividade de radioamadores nestes locais possibilitariam muito mais ações das autoridades. Mais resgates, mais informações, decisões mais acertadas e mais solidariedade.

Foi gratificante ser interlocutor e ter ajudado a propor uma alternativa para que a estrada até Santa Rita (Teresópolis) passasse pela Faz. Santo Affonso (local em que montamos a estação avançada). Fato que diminuiu em até uma semana o tempo a ser gasto para que a estrada fosse refeita.

Da mesma forma possibilitar à família do Sr. Antonio, caseiro da fazenda, que perdera sua mãe na localidade de Socorro, assistir ao Jornal Nacional e tê-la feito perceber que aquela tragédia não se abatera somente alí, mas em toda a região Serrana. Nosso gerador pode trazer um pouco de conforto àquela família que estava comendo e tomando banho no escuro. O mesmo escuro que chegaram a acreditar que o mundo tinha acabado naquela madrugada fatídica e que apenas tinha restado aqueles sobreviventes da fazenda.

Amigos, companheiros, cada estação desta é uma mão de solidariedade que se estende aos flagelados. Bem como são os ouvidos e a voz das autoridades que trabalham no atendimento emergencial.

Gostaria que os senhores e as senhoras que lessem estas linhas considerassem em suas atividades diárias a participação de radioamadores em situações como esta e propusessem mais cursos de formação e integração deste pessoal com atividades relacionadas à Defesa Civil. Todos ficariam mais fortalecidos.

As fotos desta operação encontram-se em http://www.gecre.org

Renan de Almeida - PU1ARE
Estação RENER Coordenadora Estadual do Espírito Santo
Voluntário da ROER - Petrópolis
Integrante do Grupo Expedicionários Capixabas em Rádio Emissão

Nenhum comentário:

Postar um comentário